A primeira versão do romance
A melhor amiga da gaveta
Para começar um romance novo, eu resolvi terminar outro romance, um livro complicadinho que venho escrevendo desde de 2019. Somam-se sete anos. Fez-se uma necessidade de abrir espaço para a ideia nova que havia aparecido (e eu já falei sobre o surgimento dessa ideia nova nesse texto aqui).
O senso comum diz que as ideias devem seguir uma ordem de execução: primeiro você tem 1 ideia, executa, publica, lança, é feliz. Na experiência real, ideias se acumulam, se sobrepõem e processos acontecem de forma muito intermitente e interrompida. Desisti muitas vezes desse romance de 2019, coloquei-o em uma caixa de arquivo-morto, recuperei-o da caixa do arquivo morto, fiz MUITA PESQUISA (meu deus, foi o romance para o qual MAIS fiz pesquisa em toda minha vida e fico sentindo que ainda faltou pesquisa) demorei a encontrar suas linguagens. Os personagens não queriam falar. Uns falavam baixinho, outros gritavam. Demorei a inventar as pessoas certas para contar o enredo que eu queria, demorei a descobrir o tamanho do enredo que eu queria, demorei a aceitar que era ficção e não História com H, que a mentira está sempre do meu lado.
Na noite de 25 de julho terminei a primeira versão. O primeiro fim de um romance é apenas a sua primeira versão, meio feia, capenga, cheia de escoras. Terminar a primeira versão não é terminar: não é ainda o momento de publicar. Essa primeira versão será reescrita muitas vezes: capítulos podem mudar de ordem, frases podem sair ou entrar, o final pode ser completamente alterado. A primeira versão de um romance é, na verdade, apenas uma primeira estrutura. Esta primeira unidade acontece quando o romance deixa de ser um monte de anotações, um monte de rascunhos e se torna uma estrutura, mesmo que ainda bamba, não decorada. Seus tijolos podem estar à mostra, a sua pintura pode não estar concluída, mas ele está erguido. Estão lá os personagens, o enredo, os acontecimentos, a linguagem, mas ainda muitos ajustes precisam (ou podem) ser feitos. Nas segundas, terceiras, quartas versões, até a versão final, vamos ter o momento de abandonar o livro (obra não se conclui, se abandona, dizem).
Outro motivo que me levou a querer terminar esse romance foi porque ele começou a perturbar o meu corpo. Na manhã da terça-feira, dia 21, eu já estava há alguns dias em plena escrita e acordei com o trapézio do lado esquerdo todo travado e uma enxaqueca cabulosa. Meu corpo havia até poupado de mim o sacrifício do meu braço dominante para que eu continuasse escrevendo. Tive que correr à Manu Rodrigues, nossa massagista, para ela me destravar. Minhas costas estavam cheias de nós: eram os nós do romance, conversamos, precisavam ser desfeitos logo. Manu gentilmente desfez os nós do corpo. Como estou de férias das aulas, passei os dias seguintes escrevendo o tempo inteiro com uma bolsa de água quente no pescoço. Foi uma deliciosa perturbação.
Nesse processo de primeira versão final final .docx, comecei anotando em fichas todos os acontecimentos ou capítulos que faltavam no romance. Essas fichas tornaram-se post-its que foram colados em quatro papeis A4 juntados (eu estava doida demais para sair de casa e comprar uma cartolina) em uma sequência. Post-its de cores diferentes significam tempos diferentes, os verdes eram memórias, os rosas tempos presentes — e havia ainda notas adicionais em fichas, de coisas que não podia esquecer. No melhor estilo investigação:
A cada assunto escrito, eu riscava, até riscar quase tudo, porque desisti de uma cena (e adicionei outras):
A primeira versão é uma versão amiga da gaveta. Quando eu terminei o meu Duas línguas (Zain, 2024), deixei-o na gaveta por um ano e só fui reler depois disso. Acho que foi um superluxo ter esse ano afastada, sem pensar no romance, às vezes anotando uma coisa ou outra, mas sem pegar o texto inteiro. Ao reler, eu já era outra pessoa, distante intelectual e emocionalmente do texto, e pude editar com mais clareza e maturidade.
Não sei se vou fazer o mesmo com esse, principalmente porque foi um livro com muitas e longas interrupções. O livro novo (estou chamando assim porque ele não tem título ainda, outra característica das minhas primeiras versões: é aquele bebê que fica dias sem nome) tem duas partes bem destacadas, e sinto que a primeira está mais pronta do que a segunda, que precisa amadurecer bastante. Em duas semanas, vou receber algumas amigas-leitoras-escritoras em casa e vamos ler juntas a primeira parte; quem sabe depois lemos a segunda, quando eu conseguir resolver melhor. Também é esse o momento: a primeira edição precisa ser dita em voz alta, rabiscada, remontada por mãos e olhos diferentes dos nossos.
Um amigo me mandou uma citação da Elena Ferrante do insta The Paris Review:
“Eu não acho ninguém realmente sabe como uma história toma forma. Quando está pronto, você tenta explicar como aconteceu, mas todo esforço, pelo menos no meu caso, é insuficiente”, Elena Ferrante.
É difícil responder à pergunta: “sobre o que é o seu livro?” enquanto estamos escrevendo. A gente não sabe o suficiente sobre o átomo, ou sobre a expansão do universo, ou sobre toda a biologia marinha deste planeta, ou sobre o adoecimento psíquico ou o câncer, mas continuamos perguntando e pesquisando. Devemos a mesma curiosidade com a nossa escrita, como ela se forma, como ela se desenvolve.
Apenas quando terminei o livro, comecei a entender o que eu tinha feito. É uma história sobre repetições, sobre repetir gestos, atos, pessoas, histórias. Sobre se encontrar repetido no outro. Sobre quando a repetição cessa e isso dá um medo danado. Espero que, em breve, eu possa partilhar meu romance com vocês. Ele tem 141 páginas. Na página 141 estão os agradecimentos. Nunca escrevo sozinha.
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Que bacana poder ler um pouco sobre o seu processo.
“A mentira está sempre do meu lado” — amei isso num nível.
Que prazer ver um pouco do que foi esse processo pra ti, que esse bebê ainda sem nome seja um sucesso do melhor tipo!