O nascimento do romance
hoje no globo repórter
Fiquei muito em dúvida se viria escrever um fato íntimo tão publicamente, mas semana passada eu tive uma ideia para escrever um romance. Foi uma ideia explosiva, um laço, um arremate que me deixou muito feliz. Fico com medo de dizer para todo mundo e dar azar, ou me desanimar, mas essas são mais superstições e mitos que colocamos em torno da nossa escrita e que nos impedem de construir conhecimento. Uma das minhas lutas é desfazer lugares-comuns nocivos a respeito da escrita, portanto, vamos conversar.
Ideia para romance é um evento raro para mim, tipo copa, de quatro em quatro anos, e olha que sou uma escritora que escreve muito e publica muito. Aliás, me considero sobretudo romancista; para mim, o romance é o gênero dos gêneros, não por uma suposta superioridade em relação a outras escritas, mas pela diversão que me traz e por sua plasticidade. Campeões na variação da forma (ainda mais que a poesia, acredito), o romance para mim é uma grande liberdade, ele me dá tudo o que eu desejo da literatura.
O nascimento dos romances normalmente é tímido. Iniciam-se como contos, que parecem mais interrompidos ou incompletos. Ou são só “uma coisinha que eu ando escrevendo” e a coisinha tem trinta páginas e mal parece ter começado, cheia de tramas complexas. Outro dia me precipitei e disse a uma participante do ateliê que aquelas vinte páginas que ela tinha escrito eram um romance em processo, e ela me disse que tinha levado a questão para a análise (você sabe quem é você, peço desculpas aqui publicamente, mas sou um ser humano com viés e vejo romance em tudo). Para mim, há uma música que reflete bem o que é a escrita do romance: a Sequência do Pente do Furacão 2000. Primeiro porque você tem que sentar muito para escrever um romance (“é um pente é um pente é um pente…”) e depois porque:
“Traição é traição
Romance é romance
Amor é amor
E um lance é um lance”
O romance sempre trai. Ele nasce sobre o signo da traição de gêneros: se, na antiguidade, os versos eram usados para escrever ficção e a prosa era para o regime a verdade (a filosofia, a história, a biografia), o romance é ficção em prosa. É um assunto longuíssimo, eu tenho aulas sobre isso (para quem se interessar e vamos provavelmente ter repeteco de um curso de romance no Para escrever em breve). O romance trai também quem o escreve: não sabemos bem o que vai acontecer, inventamos regras que depois vão ser quebradas, a gente quer alguma coisa muito fixa do romance e o romance parece querer outra coisa. Não dá para ter rigidez, tem que saber ouvir o que o texto quer. É um grande infiel.
E temos dificuldade de assumir: raros participantes de ateliê dizem – estou escrevendo um romance. Falam: estou escrevendo um lance. Quando vamos assumir o amor?
Estou escrevendo outro romance desde 2019, e esse tem sido minha escola. Em sete anos, já mudei de forma, personagem, narrativa, ponto de vista, tamanho inúmeras vezes. Personagens falaram e deixaram de falar, surgiram e perderam a importância. A linguagem mudou. Fiz quilômetros de pesquisa, a ponto de me esquecer do nome de algumas pessoas que entrevistei. Ainda assim, não acho que esse romance vá sair nos próximos anos, talvez ele demore uns quatro ou cinco anos ainda a ser escrito. Nesse meio tempo, publiquei três livros: Caruncho (2022), Duas línguas (2024) e Como matar seu marido (2025), além de fazer um monte de zines.
Duas línguas foi uma publicação que me fez entrar em crise, não uma crise ruim, mas uma cisão. Não nego que é o meu filho favorito: nunca me diverti tanto escrevendo, nunca fui tão feliz. Foi o que me salvou de uma pandemia horrível, de um divórcio tremendo. Quando ele saiu, pensei: nunca mais vou fazer algo como esse livro, cujo processo criativo foi simplesmente ouvir pessoas e me apropriar de suas linguagens para montar um universo novo.
E, de fato, nunca mais vou fazer algo como aquele livro. Foi algo que vivi e não existe mais. Um luto de perder uma pessoa, terminar um namoro, perder uma nacionalidade. Durou tão pouco, essa escrita. Nunca mais me apaixonei por um tema, por uma estrutura, por um personagem depois que esse livro aconteceu. A escrita se tornou custosa. Eu tinha ideias, elas não paravam em pé. Não era a jornada que eu queria. Não era minha jornada. Ao mesmo tempo, parecia que uma coleção de histórias apodrecia nas minhas mãos.
Daí, o Octávio Deluchi, um amigo violonista, veio para BH.
Eu acho Octávio uma fonte perene de energia criativa, ele flui imensamente, constantemente. É um músico do jeito que eu gosto: pesado, ao modo dos pianistas russos. Eu nunca o tinha visto tocar ao vivo (sempre que ele vem ao Brasil, ele dá preferência para cidades do interior), mas dessa vez o ouvimos em dois eventos em dois dias seguidos: primeiro, com um repertório exclusivo de Chiquinha Gonzaga no evento Violão na Quixote, da Livros & Violões, programa curado pelo nosso companheiro Davi; e no dia seguinte, no Palácio das Artes. No primeiro concerto eu anotei no automático algo que ele falou , sem me dar conta que eu estava anotando: “nunca tinha me atentado a esse repertório de forma sistemática no violão de concerto”. É uma frase sem contexto, mas contém a linguagem do Octávio.
No segundo concerto, entretanto, ele falou mais longamente sobre o percurso que estava fazendo: Octávio mora em NY, e sua tour já passou por muitas cidades. São João, Barbacena, Curitiba, BH, depois Prados, sua cidade de origem familiar. Depois, Octávio vai para São Paulo, Rio, Juiz de Fora, depois Colômbia e Canadá (quem quiser acompanhar a tour e receber a energia criativa total de Octávio, acompanhem aqui). Daí surgiu a minha ideia.
O romance é a história de uma pessoa concertista a partir do momento em que ela sai de casa para dar uma série de concertos em diferentes cidades (por enquanto, quero o Brasil, mas vamos ver para onde essa criatura vai) até o momento em que ela retorna à casa. Ao longo de sua jornada, essa pessoa vai ficando em lugares, conhecendo pessoas e ouvindo histórias. Boa parte da narrativa são histórias ouvidas por essa pessoa.
Pensei em escrever ao modo, mais ou menos, de Rachel Cusk em Esboço, em que os dez capítulos do livro são, em sua maioria, histórias de outras pessoas. Penso também no Decameron, com suas cem histórias emolduradas por uma narrativa maior. A essa estrutura nascida do plim que fatos biográficos do Octávio me causaram, estou adicionando ideias soltas que existiam antes e eu morria de vontade de escrever sobre – instrumento musical amaldiçoado, teatro assombrado, viagem no Brasil, o teatro de Sabará, um professor carrasco e muitas outras histórias que ouvi. Outra coisa que me deixa muito feliz é a perspectiva de pesquisa para essa escrita: ouvir muitas pessoas. Ontem já pedi e recebi alguns áudios de uma amiga descrevendo um camarim e uma sala de concertos.
Quando contei esse fato todo na análise essa semana, meu analista me disse que quando eu começo a escrever, ele sente que é como se eu estivesse viajando, e que viajar e ouvir são coisas minhas e que me deixam feliz. Entretanto, quando a escrita acaba, eu volto para a angústia, que é a angústia de lançar, publicar, divulgar o livro, coisas que não são tão minhas, que não me deixam tão feliz. Sinto que ainda não me encaixo bem nesse lugar da escritora publicada, mas no da escritora que está em escrita, passeia, escuta e partilha processos. Daí meu analista arrematou: quem se encaixa bem nos lugares não cria lugares novos.
- - -
Trago também a novidade do muito solicitado ateliê de escrita online, pessoal:
A turma será às quartas-feiras e vai começar em 12/08/2026 e vamos seguir juntxs pelo segundo semestre. Principal atividade do Estratégias Narrativas, o ateliê de escrita tem o objetivo de estimular, exercitar, orientar e dar formação a pessoas que escrevem ou têm vontade de escrever, sempre de acordo com seus desejos. São bem-vindos aqui textos em prosa, poesia, romance, ensaio, crônica, conto & outros gêneros menos convencionais. Você pode entrar aqui para saber mais, ou se inscrever aqui:








Fiquei pensando que o romance também é um flerte e quando o jogo muda só nos resta seguir outras técnicas de conquista e sedução.
Fiquei com a impressão que o romance é uma aposta: algo surge da observação constante, você agarra isso, estica, puxa, muda de cubo pra pirâmide pra ver se encaixa em algo que já tinha e, de repente, tá lá um romance sendo feito.