O estuprador intelectual
um trauma além do dr. pica explica
Estou pensando há alguns meses nisso, sobre pessoas que não param de falar (principalmente sobre si) em reuniões de trabalho, cafés, rolês, salas de aula e barzinho, nos invadindo com suas palavras, gerando o que eu acredito ser uma experiência violenta e traumática (pelo menos para mim). Faz bem dar nome aos sofrimentos, de forma a elaborar a inquietação que estou sentindo agora.
Estamos familiarizadas com o mansplaining, ou como prefiro, brilhantemente formulado pela Renata Corrêa neste maravilhoso vídeo, o brasileiro Dr. Pica Explica. É simplesmente um cara te explicando uma coisa que você já sabe, ou na qual você é especialista, sem que você solicitasse. Aliás, você nem precisa ser especialista. Ele está te chamando de burra, ele está sendo o bonitão que sabe mais do que você, ele está te usando para inflar o próprio ego. Entretanto, eu venho percebendo que ao longo da vida passei por situações que ultrapassam a atitude de um Dr. Pica Explica, e vejo pessoas passando por situações que excedem esse mansplaing e entram em um abuso auditivo e temporal contínuo e profundo. Ilustro com algumas situações.
Quando eu me divorciei, parei de sentir um cansaço gigante. A minha casa passou a ter um silêncio magnífico, retornei a ter uma energia para trabalhar gigantesca. Mas com o quê eu estava gastando essa energia que agora abundava?
Percebi que meu ex-marido tinha um hábito de falar sem parar sobre assuntos diversos, em maioria reclamações, ou discursos sobre filmes, política, música, livros de filosofia ou outras coisas, e esse falatório do meu ex não era uma conversa, era ele falando, sem espaço para que eu dissesse nada, para que eu relatasse nada, porque eu sabia que não seria ouvida, ele apenas falaria por cima de mim. Eu me lembro de estar trabalhando no meu escritório e ele chegava por trás, não importava o que eu estava fazendo, e ele começava a falar da vida dele. Nos últimos meses da relação, eu me lembro de ter começado a colocar um freio nisso, ter pedido para ele não interromper meu trabalho com aquele falatório e ele ficou muito chateado. Chegou a recorrer no erro e quando eu ficava brava, ele se retirava, dizendo que tinha entendido. Eu estava sobrecarregada pelas palavras dele. Além disso, nos comunicávamos mal: ele não ouvia o que eu tinha a dizer, o famoso caso da mulher que não se sente escutada em um casamento. Quando terminei a relação, tive a impressão de que ele ficou surpreso. Ainda hesito em escrever isso, desconfiando da minha percepção, achando que fui sensível demais por não ter aguentado uma coisinha dessas.
Existe uma figura que está por aí nos bares, nas escolas, nas reuniões, nos lançamentos de livro, nas vernissages, que é uma figura que fala desenfreadamente. Ele te encerra em um canto e começa a falar sem parar sobre um assunto sobre o qual você pode se interessar ou não, mas você não tem espaço para responder e ele não vai te ouvir. Ele não te faz perguntas. Ele sequer pergunta como você está quando te cumprimenta, e se você diz bem ou mal, ele não escuta. Quando você o questiona sobre alguma coisa que ele diz (por que o fulano diz também coisas polêmicas e absurdas que podem te ferir de alguma maneira – por exemplo, já fui encurralada por uma pessoa dessas que fez questão de falar mal de livros que eu adoro, ou com informações que eu não queria ouvir), ele continua falando, dobrando a aposta. Você vai ficando exausta, procurando uma saída.
Ele é estuprador intelectual, e ele não quer conversar com você. Ele quer falar. Ele não está interessado no que você tem a dizer. Ele quer que você seja o ouvido-objeto para receber passivamente o que ele deseja falar. Ele quer ser exclusivamente ouvido, o prazer obtido através de seu falatório é muito mais importante do que qualquer conforto no ambiente. Uma vez, um amigo teve uma situação com um desses estupradores intelectuais que o encurralou em uma festa e não parava de falar, e eu perguntei: ele te perguntou como você estava? O que você andava fazendo? E ele disse que não, que o sujeito em questão apenas falou de si e pronto. Esse tipo de ato me fez romper algumas relações: pessoas que convidei para perto e que só queriam mesmo usar meus ouvidos, meu tempo.
Não acho que seja uma simples falta de noção, falta de tato social, mas uma tentativa de capturar a atenção do outro. O estuprador intelectual infla a própria existência colonizando o corpo do outro através da sua fala, muitas vezes plena de reclamações, auto exaltações, arrogâncias, aulinhas. O estuprador intelectual, sobretudo, não fala coisas agradáveis. Para o estuprador intelectual, o outro é depósito, o outro precisa ouvir – ser compreensivo. Por certo, onde coloco esse ouvido de mulher, educado para escutar, creio que existe também o ouvido da pessoa de cor, da pessoa preta, da pessoa não-homem, da pessoa trans, qualquer corpo dissidente ou que ainda não tem, na cabeça do estuprador intelectual, a experiência de vida e o conhecimento que ele tem, portanto, deveria ficar quieta, ouvindo.
Acho que, afinal, todo mundo pode cometer um estupro intelectual ou ser vítima de um, eu tenho um pavor enorme de ter feito isso com alguém na minha vida ou de fazer isso um dia. Mas existem os estupradores intelectuais em série, aquele desmancha-bolinho que reclama constantemente que não tem amigos, ou que as pessoas são ocupadas demais para ele, para as ideias dele, para os planos dele. Muitas vezes eu reconheço esse cara na multidão, minha intuição diz: ele vai te fazer uma pergunta sobre o seu trampo e depois vai tentar ficar uma hora falando sobre as coisas dele. E é o que ele tenta fazer. No lançamento do meu livro Como matar seu marido, um homem tentou fazer isso comigo, e quando me desvencilhei, ele passou a noite toda me chamando de Lucrécia. Depois ficou alugando o ouvido de outros.
Existe um tipo de cara também com quem convivi que às vezes manda mensagem para mim, sem bom dia, sem oi, tudo bem?, apenas dizendo que viu um filme tal, que leu um livro tal, ou enviando um áudio enorme. Ele não quer saber de você, ele quer falar, ele quer se mostrar, uma espécie de exibicionismo em que ele acha que você está disposta a ouvir.
Ouvir dá trabalho. Não é um gesto passivo, neutro, desinteressado. O que se escuta, a gente guarda. Além de tudo, a escuta é um gesto limitado (caso contrário Lacan não teria inventado seu famoso corte). Parte do meu trabalho é ouvir a escrita das pessoas, e às vezes chego tão exausta em casa que não consigo conversar por algum tempo. Pascal Quignard escreve em seu Ódio à música: “os ouvidos não têm pálpebras”. Uma pessoa sugeriu que esse ato de tomar uma pessoa para te ouvir podia não ser um estupro, mas realmente um sequestro intelectual, mas eu discordei: o estuprador intelectual te penetra com palavras. É um abuso corporal. Você sai da situação de estupro intelectual sofrendo de exaustão. Pensem em como são exaustivos os loucos de palestra, que interrompem aulas para falar-falar às vezes sem fazer uma pergunta, às vezes só falando de si, do próprio trabalho. Essas pessoas estragam o tempo, gastam nossa escuta.
Mas como se livrar do estuprador intelectual? Ele não nos dá chance de sair, criando uma armadilha em que somos obrigadas a ficar, em que ele se sente dono do nosso tempo, do nosso corpo. Fomos ensinadas a não interromper, não podemos dizer: você está falando demais, não quero mais ouvir. Na verdade, nos ensinaram a ouvir passivamente, sem questionar, sem interromper, por mais que aquilo esteja nos fazendo mal. Talvez esse seja o gesto mais típico da obediência. Se o cara fala alguma merda, não podemos corrigir, se tentamos corrigir, somos interrompidas, se não somos interrompidas, sofremos chacota ou não somos ouvidas. Temos que ser muito bem comportadas. Isso me gera raiva e revolta. Quero poder dizer: não estou gostando do tanto que você está falando. Não estou gostando de como você não me ouve. Isso me gera incômodo. Agora é a minha vez de falar (na verdade, a gente até desanima de falar com essa criatura). Recebi sugestões no insta quando fiz um post sobre isso: com licença, vou ao banheiro, dar uma gargalhada doida e sair andando. Como interromper o falador sem sentir a ressaca da culpa? Como sustentar esse limite?
A coisa é que tenho baixa tolerância para o estuprador intelectual. Talvez porque eu seja muito amante de uma boa conversa, talvez porque eu goste de ouvir as pessoas e sinto que o estuprador intelectual abusa do meu amor por escutar. Ele me machuca e me ofende profundamente, rompendo com algo que considero muito sagrado. Quando sou capturada pelo falatório do estuprador intelectual, sinto que estou desperdiçando o precioso tempo de uma boa conversa com as minhas amigas. Estas, sim, sempre perguntam como estou.
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Agradeço a todas pessoas que conversaram comigo sobre o tema nas últimas semanas e me ajudaram a elaborar essa ideia. Agradeço ao Davi pela invenção do termo “eletc.”. Por favor, que a gente continue conversando sobre isso.



que sorte poder ler alguém que consiga nomear coisas quase inomináveis. obrigado :)
Pro estuprador intelectual nunca há um "nós" né?