Notícias da torre (V)
A descida para a selva
Notícias da torre (V)
A descida para a selva
Fiquei um tempo sem aparecer por aqui na newsletter porque não deu: comecei a ter sintomas de dengue no dia 06/02, bem ao fim da minha estadia na torre, quando voltaria a dar aulas no ateliê de escrita do Estratégias Narrativas. Foram três semanas e mais um pouco de sofrimento, e depois mais um tempo para conseguir retomar as atividades, reorganizar a agenda. Hoje de manhã me vi saudável e sem compromissos o bastante para vir fazer um balanço do que foi a torre de escrita para mim.
A verdade é que estou perdida. Ontem eu tentei organizar meu material de escrita e vi que estou com uma selva de projetos começados — e apenas um concluído. Tudo bem, um projeto concluído, outro para publicação (em maio tem livro novo, já tem capa, posfácio e é muito amado), mas eu definitivamente preciso me organizar para entender o que eu quero da literatura a partir daqui. Já disse, em outra notícia da torre, que eu ia escrever o que me desse vontade, e ainda estou nesse pique. Entretanto a minha maior vontade no momento é definir esses projetos, para em seguida terminá-los, encaminhá-los, desenvolvê-los para fora do caos que eu mesma criei.
Juntando minhas pastas para descer da torre, organizei-as, empilhei materiais, e nesse estado estamos:
Temos:
1. um romance meio político, meio surreal, meio em versos, meio em prosa, para o qual estou pesquisando desde 2018 e que avança muito pouco porque tenho dificuldade de encontrar a linguagem. Eu o inscrevi em um edital de bolsa e estou no aguardo. Ainda falta muita pesquisa e isso tem me angustiado porque o assunto é meio perturbador. Me dá pesadelos.
2. Outro romance musical — passei a maior parte do tempo na torre esse ano trabalhando nisso. Recebi leituras sobre ele, uma nova voz, antes sufocada por mim, surgiu. Acho que 50% do trabalho está feito, mas como é um romance longo, ainda falta chão.
3. Um livro de poemas sobre o meu divórcio, pronto. Em busca de publicação. Ele ficou classificado no último concurso do qual participei, e isso me deixou feliz, apesar de não ter levado dessa vez. Gostaria que ele tivesse um alcance maior do que minhas outras coisas – um alcance nacional – mas não sei bem o que fazer, então vou deixar descansando & pedir ajuda.
4. Ensaios-poema. Tenho uns, quero escrever mais alguns. Ano passado escrevi e apresentei na FALE/UFMG um ensaio-protesto chamado Quem pode escrever? Estou pensando publicar esse em alguma revista ou coisa do tipo. Além de trabalhar na leitura performática dele com Malu Grossi Maia.* Coloquei nesse bloco também um poema meu que foi publicado em zine e em uma revista da UFMG chamado Escrever é uma maneira de se pensar para fora. Talvez isso tudo vire um livro no futuro.
5. Poesia reunida: reunir e reeditar meus 2 livritos de poemas (ferro, de 2014 e o ano do boi, de 2021), mais alguns muitos poemas que escrevi e publiquei por aí. Acho que isso tem certo caráter de urgência para mim: organizar esses poemas, reescrever algumas coisas, deixá-los numa edição mais robusta, porque gosto deles, não quero que eles se percam.
6. Um romance novo com uma personagem velha e asquerosa. Preciso ler bastante Hilda Hilst para isso. Meu objetivo é criar uma canalha, uma proposta que parece divertida. Aceito recomendações de leitura para a criação dessa horrorosa.
7. Um romance novo sobre a história de um abandono amoroso que ouvi no ano passado e que me consumiu a cabeça. Estava sem linguagem e finalmente encontrei essa linguagem depois de ler um livro do Alan Pauls. Agora sinto que é só sentar e escrever. Trabalho nele aos poucos. E ainda estou fazendo bastante pesquisa.
8. Um texto que estou escrevendo no A’teliê poético do Espaço a’mais com a Maraíza e minhas amadas colegas. Novamente, é sobre música. Estou tentando estudar a linguagem de um dos meus romances favoritos, As meninas da Lygia Fagundes Telles, que é narrado simultaneamente em 1a e 3a pessoa. Difícil, mas divertido.
9. Uma série de contos que comecei em anos diversos e não foram terminados. A última vez que mexi nisso foi em 2022.
Acho que essa lista quebra de vez a ideia de que escritores começam e terminam um projeto antes de começar uma coisa nova. Não: é tudo esse caos. Coisas surgem umas das outras, se bifurcam, projetos acabam e renascem. Falhamos, recomeçamos. Acho que essa variedade é uma das coisas mais importantes do meu processo criativo.
No geral, acho que a torre foi produtiva e boa para meu coração. Não sei se gostei muito de registrar o número de horas de escrita diária, isso me perturbou um pouco, porque boa parte de um trabalho de escrita ocorre muito mais no pensamento, na pesquisa, na rua do que no escritório. Sentar para escrever às vezes parece 1/10 do que realmente ocorre. A escrita está até mesmo nos sonhos: frequentemente anoto enredos das noites bem dormidas. Entretanto, contabilizar horas de escrita realmente ajudou a deslanchar um projeto, organizar, estruturar, resolver. É um recurso, não deve ser o único.
Por fim, digo que apesar de tudo, achei esse período de torre muito solitário. Faltou companhia, faltou troca, senti uma saudade inacreditável dos ateliês, os que dou e os que faço. A cilada na qual eu me meti na torre foi ficar muito sozinha, a solução foi encontrar gente. O que preciso, além de períodos de torre de escrita, é conseguir encaixar a literatura no meio do cotidiano, equilibrá-la, levar isso comigo. Acho que esse tempo para escrever, junto com mil outros assuntos que quero tratar aqui na newsletter, vai ser uma conversa que vamos ter. Então, talvez a melhor coisa a se fazer na torre é uma festa.
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* O nome da Malu está com um asterisco porque ela vai dar uma oficina no Estratégias Narrativas sobre leitura em voz alta de poesia – interpretações e criações. Saca só:
RECLAMAR A POESIA: oficina de direção de texto.
Atividade presencial com Malu Grossi Maia
Através da criação poética, a oficina pretende trazer ferramentas teatrais para leitura ou declamação de poesia, com exercícios de intenções, entonações e expressão corporal. Assim como editamos e mexemos nos textos produzidos, trabalharemos da mesma maneira com o poema falido (falado + lido), usando recursos como cortes, pausas, cavalgadas, silêncio, pronúncia, entre outros.
Estudaremos emoções e gestos que podem potencializar a palavra falada ou torná-la um instrumento de trabalho poético. Assistiremos as diversas formas de poesia falada, a fim de partir da simplicidade de uma leitura em voz alta para um público pequeno. Algumas noções da palhaçaria também serão trabalhadas.
Para colocar palavras dentro da nossa boca, usaremos tudo a nosso favor: nossas características, nossas emoções e nossa voz. A oficina é voltada tanto para poetas que queiram trabalhar a leitura quanto para atores que queiram trabalhar a poesia. Reclamar também significa exigir aquilo que nos pertence, portanto, vamos reclamar a poesia.
Quintas-feiras: 11, 18, 25 de abril e 2 de maio de 2024, 19h-21h
valor: R$ 280 / vagas limitadas
endereço: R. da Bahia, 1148,
sl. 1537, ed. Maletta, Belo Horizonte/MG
+info e inscrição: link na descrição
no e-mail: estrategiasnarrativas@gmail.com
ou no whatsapp: (31) 99941-6546



