notas de ateliê #2
sob o efeito de corticoides
1. Vejamos a escrita como algo menos objetivo, mas como algo mais errático. Não tenhamos tanto propósito. Vou começar a escrever um texto, vou escrever o texto, mas não tenho a obrigação de terminá-lo, sequer tenho a obrigação de gostar dele. Esse texto pode ser um monte de fragmentos que não façam tanto sentido. Não preciso chegar ao fim, se é que há fim, não se faz necessário publicar (rapidamente ainda?). Faz-se necessário, se houver desejo escrever, aprender com a escrita com a escrita. O texto ensina a escrever o próprio texto e ainda outros textos. Escrever um texto que “não vai dar em nada” pode ser um ensinamento para a escrita futura. Tudo é músculo.
2. Tomo, sem saber (sem ser avisada), um remédio que contém corticoide, e corticoide normalmente produz um efeito meio psicotrópico em mim. Fiquei muito doida, gente. Na minha cabeça, planejei pedir desculpas públicas aos meus alunos do ateliê. Andei muito mau humorada nesses primeiros dias de aula do ano, reclamando de tudo. Mas agora descansei e estou melhor. Estou tendo a responsabilidade de cuidar das minhas coisas e de não me ressentir. Estou, sobretudo, cuidando da minha saúde, que não andava bem, e fazendo minha fisioterapia para reabituar meu labirinto adoecido ao movimento.
3. O músculo também é incerto. Minha mãe contou de um amigo que teve uma rutura muscular por excesso de esforço (estava jogando bola), me pareceu uma história de terror. O músculo se rompeu e se acumulou todo junto a uma articulação. Parece que não há muito o que fazer, a não ser esperar a recuperação, colocar gelo e fazer fisioterapia.
4. “Tempo é cérebro”, dizem os psiquiatras. O texto resiste ao tempo de diversas formas.
5. Escrevo o livro novo em sprints. Fico tempos sem mexer no arquivo e em um fim de semana produzo trinta páginas, construídas agora no computador através de cadernos de notas, nos quais redijo com uma letra bem ruim, aos poucos, nos dias anteriores. Escrevo as notas e escondo-as de mim mesma, elas me perturbam, o que é essa perturbação que a escrita produz na gente? Eu me pergunto quanta verossimilhança é necessária para esse texto, se vivemos absurdo através de absurdo e entendemos os absurdos sem endoidar demais. Aos poucos, algo sobra do livro novo e entendo que estou terminando de escrever um romance porque já comecei a escrever outro que apelidei de happy end. Não é o título final. O romance anterior também não tem título.
6. Das coisas mais bonitas que vejo em ateliê é quando projetos se desdobram. Uma dissertação de mestrado vira um memorial. Uma viagem sonhada vira um livro de contos. Conjuntos de poemas viram um romance. Um projeto de romance se torna poema-ensaio. De um romance nasce outro. Do romance policial nasce um livro de haicais (alô, Barthes). Quem não metrifica passa a metrificar e vice-versa. Tempo é cérebro, tempo é músculo. Não temer a metamorfose (mas também nada de forçar a porta).
7. Torrando no sol de carnaval, leio Morro dos ventos uivantes porque todo mundo nesse ateliê parece estar lendo ou relendo esse livro. Meu deus, que pocilga, como mergulhar nessa pocilga, como escrever gente tão ruim? Como não ter medo dessa ruindade toda? Como escrever essa ruindade – é isso que preciso aprender para escrever o romance que estou escrevendo com a letra ruim, para terminá-lo, para parar de temer sua inverossimilhança e contar JÁ a história que imaginei. Rasgar a pele das personagens, deixar que elas sejam mesmo as pessoas ruins que elas são.
8. Não existe projeto ambicioso demais. Existe livro mal cortado.
9.De vez em quando, lendo o texto das pessoas, recebo uma perguntinha: “você gostou do meu texto?”. “O que eu quero saber é se você gosta do que eu escrevo”. Por que é tão importante saber se eu gostei, se eu tenho tantas coisas a mais a dizer além do frívolo gosto-não-gosto? Um drama às vezes se inaugura: “a Laura não gostou do meu texto”. Essa não é uma medida que me interessa, não me interessa aprovar ou desaprovar, não coloquem na minha língua tal autoridade. Essa semana, estou brincando assim: se me perguntam se eu gosto, eu digo que gosto de chupar picolé, gosto de literatura do século XIII, gosto de tomar sol na praia.
10.Inês está escrevendo um projeto muito difícil! É longo, é trabalhoso. Inês respondeu assim quando eu disse que a gente precisa se divertir ao longo do processo:
Inês, você está certíssima! Tivemos uma conversa sobre um tweet que eu partilhei há umas semanas em que uma pessoa mandava tomar no cu outra que lhe mandava “apaixonar-se pelo processo”. Vamos entender que malhar braço dói. Dói enquanto você malha e fica doendo no dia seguinte. Ainda assim, a gente volta aos halteres porque é ou isso, ou uma qualidade de vida muito baixa. Quero carregar sacolas pesadas sozinha.
11.Há formulações de ateliê que são muito valiosas. Como quando discutiu-se o valor literário de se lamber o suvaco de alguém (aprovadíssimo, aguardo a escrita dessa cena muito real) e quando, essa semana, alguém chamou a lavagem nasal de “chuca de nariz”. Não fosse a literatura, não nomearíamos nada. Ou os nomes não teriam tanta graça.



eu gostei muito
Ai que coisa maravilhosa!!!