notas de ateliê #1
escrever e estragar
Talvez eu comece uma nova sessão, quando der, de notas de coisas que aconteceram em ateliê.
1. Essa semana decidimos que podemos ler Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares como se fossem o mesmo autor.
2. O medo de escrever e ficar ruim/sujo/feio pode arruinar toda a escrita. Uma anedota: um maestro estava ensaiando A sagração da primavera, de Igor Stravinsky com sua orquestra. Interrompeu os músicos e disse: está correto demais e bonito demais, portanto, está errado. Precisa ser sujo. Às vezes o desejo de soar belo estraga o que se quer dizer. Talvez seja melhor gastar mais palavras para dizer muito, sujar-se com palavras e cortar depois.
3. “Tenho medo de escrever e estragar”. Qual a relação entre escrita e estrago? Precisamos nos aprofundar nessa sensação. Como se o próprio ato de escrever pudesse produzir algum dano irreversível.
4. Quem escreve diz: a minha intenção com esse texto era... mas o texto se tornou outra coisa. Há duas opções: a) forçar e mudar o texto para alcançar a sua intenção inicial (uma vez que você precisa dizer essa coisa — mas por que?), mesmo que a nova escrita que surgiu seja muito mais interessante e diga muitas coisas além do que você queria dizer inicialmente. b) aceitar que o caminho não é bem aquilo que a gente pretendia e deixar o texto dizer todas essas novas coisas que ele diz. Terceira via: deixar o primeiro texto que falhou em seu objetivo (mas alcançou outras coisas) e tentar de novo um texto que diga o que você queria dizer. Entender que talvez a gente nunca vá conseguir dizer aquilo que a gente quer dizer.
5. O que é mais importante: o texto ou o que você queria dizer? A sua intenção ou o texto?
6. Há um apego de quem escreve em relação a certa ideia de literatura, ou certa imagem do que deve ser a escrita, ou do que deveria ser um processo criativo: deveria haver uma linearidade, uma retidão. Com uma voz de professora de português mui carrasca, se diz – deve-se ter começo, meio e fim.
7. Estou me sentindo amargurada e percebo que estou há muito tempo sem cuidar da minha escrita literária (em questões de trabalho, ando escrevendo um bocado). Vou escrever o romance. Abro o arquivo que não abria desde 10/01 no dia 06/02 e percebo que a parte demarcada como PARTE UM do romance novo está concluída. A parte demarcada como PARTE DOIS foi começada. Passo os olhos pelo que escrevi. Não me lembro de ter escrito nada disso. O arquivo tem 64 páginas. Escrevo mais seis, chego à página 70.
8. Escrevo sujamente como um exercício. Deixo lacunas, coisas para a Laura do futuro concluir, para ela se esquecer que escreveu e trabalhar no que não foi ela quem fez. Ela se esquece, sente que não foi ela. Não foi ela.
9. Julia Panadés, minha professora, me disse uma vez que há duas formas de um professor de arte (inclua-se aqui eu, professora de literatura) ficar infeliz. Quando ele fica dando aulas demais, sem tempo para sua própria rotina de criação; ou quando fica se dedicando à criação demais e não se integra no mundo das aulas, se atualizando e se contaminando na classe. Acho que eu estava infeliz da primeira maneira, sem criar minhas coisas, sem escrever tanto.
10. Escrevo sem pressa e de forma diferente, mas o texto parece brotar sozinho sem que eu permita. Tento aprender com minhas amigas escritoras que fazem fragmentos: fiz uma personagem que diz apenas o necessário, até mesmo o seu excesso é apenas o necessário. O processo é viciante, inebriante, mesmo assim é sujo. Escrevo uma frase longa e logo vou cortando adjetivos, verbos, advérbios, as três classes mais inúteis na literatura. Eu poderia escrevê-la apenas com substantivos.
11. Minha escrita – formei-a para ser longa. Escrever fragmentos: estou apanhando, mas estou me divertindo. Um baralho novo.
12. Não sofrer, não se apegar, não competir, mas se divertir num jogo, um jogo em que precisamos saber que todas as pecinhas irão para a mesma caixa e estarão disponíveis para serem jogadas quando tivermos vontade. A literatura está assegurada, não iremos perdê-la. Amanhã ela ainda estará aqui. Por favor, prometa que amanhã ela ainda estará aqui.
13. A escrita começa no excesso. Fazer bastante. Depois cortar. Parece ser um caminho em que se joga mais vezes, portanto, há mais chances de novas combinações. Não é um jogo que se ganha.
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Em março, vou dar o repeteco da minha oficina COMO MATAR SEU MARIDO E OUTRAS PESSOAS online no Estratégias Narrativas.
“A literatura é uma forma elegante de rancor”, escreve Maria Negroni. Mas às vezes não queremos ser tão elegantes assim... Nesta oficina, vamos realizar alguns procedimentos usados no meu livro-manual Como matar seu marido (CEPE, 2025), tais como as maldições, a autocrítica, a apropriação de discursos odiáveis, os xingamentos, a tortura, as instruções e a humilhação. Para tal, vamos ler poemas e prosas dos séculos I ao XXI que mataram se vingaram de seus inimigos usando a palavra: Catulo, cantigas de escárnio e maldizer, Pierre Passereau, Maria Negroni, Adelaide Ivánova, Lilian Sais, Beatriz de Dia, Francisco Mallmann, entre outras, além da leitura do próprio Como matar seu marido.
Realizaremos exercícios diversos, buscando pelas palavras de nossos inimigos – e cortando suas línguas (no mínimo...). Os exercícios feitos serão lidos, escutados e editados em sala e cada um de nós comporá, em três encontros, seu próprio caderno de maldições, vingança e assassinatos.
Quartas-feiras, 04, 11, 18 e 25 de março, 19h-21h
R$350,00




amo isso da escrita virar uma coisa diferente da intenção inicial. isso acontece com quase todos os meus textos. trabalho com os desvios!
*mas demorei a amar isso hahahah
Adorei! Eu também já me fiz muito esta pergunta sobre o que é mais importante - minha intenção ou o texto - e hoje não me faço mais (faço várias outras) : o texto, sempre ele ❤️🔥